A Economia de Comunhão (EdC) une dois conceitos fundamentais que, quando analisados juntos, ampliam nossa compreensão sobre o agir humano. A Economia é a ciência que organiza a produção de bens e serviços para atender a sociedade, garantindo que as pessoas vivam com dignidade. Em essência, é o estudo de como gerir recursos para que as necessidades básicas e sociais sejam supridas. Já a Comunhão está ligada ao valor ético e humano, conferindo significado e propósito ao que se realiza.

Inspirada por Chiara Lubich (Movimento dos Focolares) e fundamentada em uma cultura de reciprocidade, a EdC propõe uma mudança cultural que conecta pessoas comprometidas em compartilhar propósitos e recursos no combate às desigualdades sociais, por meio de conceitos que transcendem o indivíduo e o conectam a algo maior.

A interconexão e a comum união na prática

Para facilitar o entendimento, consideremos uma padaria. O pão produzido é fruto do trabalho de pessoas que se organizam e se relacionam. Embora sua finalidade imediata seja a nutrição, esse alimento também promove o encontro, a vida social e a partilha, em torno desse produto que chamamos de pão – a “comum união”.

Esse ciclo, porém, começa antes, no esforço do agricultor que cultiva o trigo. Ao trabalhar, ele não apenas garante seu sustento, mas compartilha o fruto de sua dedicação com a sociedade. Assim, o ser humano pode, por meio de sua escolha consciente, se incorporar ao mundo dos bens e serviços, realizando a comunhão de si mesmo de forma concreta. Na prática, o trabalho torna-se o meio consciente de se relacionar com as pessoas através do fruto de seu trabalho.

O novo significado do trabalho

Neste contexto, a Economia de Comunhão redefine o conceito de trabalho? 

Sim. Ela confere às ações econômicas um sentido mais profundo e uma nova consciência: que posso através do meu trabalho realizar a comunhão entre as pessoas.

Além do padeiro e do agricultor, podemos observar o arquiteto: ele capta as necessidades de uma família e as transforma em um projeto. Naquela casa, estão as aspirações dos moradores e a essência do profissional; o produto final é fruto dessa partilha que se realizou mediante  a comunhão das pessoas. O mesmo ocorre com o artista que compartilha a beleza em suas obras, o médico que oferece conhecimento para curar, o engenheiro que cria máquinas para facilitar a vida ou o professor que distribui conhecimento.

Portanto, a EdC acrescenta propósito, autoconhecimento e conexão ao trabalho, ressignificando as estruturas que o sustentam.

Um novo propósito para a economia

O agir econômico na EdC coloca o ser humano como o fim, o beneficiário dos bens e serviços, e não como um meio para atingir outros objetivos. Embora o lucro seja essencial para a sustentabilidade da atividade, não deve correr o risco de se tornar um fim em si mesmo. E isso acontece quando o lucro é colocado como um fim usando as pessoas para atingi-lo.

Conclui-se que na cultura de Economia de Comunhão, a produção cria comunhão, em virtude dos bens e serviços entre quem produz e quem recebe. Existe uma reciprocidade que gera a união. Mesmo a valorização monetária — que deve ser justa — não retira o significado humano da atividade. Nessa cultura, valores como propósito e consciência da conexão interpessoal não são meros detalhes, mas partes integrantes do planejamento estratégico.  Então, a comunhão acontece de maneira importante no conceito que damos da economia:  usando bens e serviços produzidos de forma consciente e não somente na partilha dos resultados. É essa nova cultura que define um aspecto importante da experiência feita pela Economia de Comunhão.

Por Rodolfo Leibholz, protagonista da Economia de Comunhão e autor do livro Navegar sobre a Economia.