Pela primeira vez, a Economia de Comunhão (edc) chegou ao coração do Pantanal brasileiro.
Em uma parceria inédita com a Bruaca Negócios Socioambientais, realizamos, nos dias 15 e 16 de dezembro, a Oficina de Florescimento Humano e Fomento ao Empreendedorismo em Economia de Comunhão para 22 mulheres indígenas, ribeirinhas e urbanas, na cidade de Miranda (MS).
“Muitas chegaram sem se reconhecer como empreendedoras, apesar de já atuarem com artesanato, alimentos, apicultura, doces ou serviços. Ao longo das dinâmicas e conversas, esse olhar começou a se transformar”, explicou Rodrigo Apolinário, facilitador de oficinas da Economia de Comunhão.
Durante os dois dias de percurso formativo, a edc se apresentou não como um conceito abstrato, mas como uma prática viva, capaz de despertar para a importância de se unirem em rede, experimentarem a reciprocidade e a força da comunhão de talentos, de experiências, de recursos e da própria vida, para crescerem junto com suas comunidades.


Essa proposta dialoga profundamente com o trabalho já desenvolvido pela Bruaca Negócios Socioambientais, que atua fortalecendo comunidades indígenas, ribeirinhas e de assentamentos no Pantanal, com foco na economia criativa e no protagonismo das mulheres.
“Estou saindo dessa oficina com aquela certeza de que agora, sim, eu sou empreendedora. Aprendi muito com a oficina e, com a Economia de Comunhão, aprendi que a união faz a força e que a parceria é sempre importante. Estou saindo com gratidão e com a fé fortalecida de que a gente tem que caminhar assim: juntos, unidos e sempre praticando o dar e o receber. Agora, sim, eu sei para onde estou indo”, disse Edineia Miranda, indígena do povo Terena que vive na aldeia Babaçu, em Miranda.
Entre as mulheres ribeirinhas, histórias de resiliência e adaptação também marcaram o encontro. Nilza Bandeira, apicultora, compartilhou sua trajetória de transição da pesca para a apicultura diante da escassez de peixes no Rio Miranda. “A oficina foi maravilhosa. Eu não conhecia a Economia de Comunhão, vim e aprendi muito. Conheci mulheres maravilhosas”, afirmou.
Desafios regionais


Com mais de 200 anos de história, a cidade de Miranda foi um marco na Guerra do Paraguai e carrega uma composição social singular: cerca de 30% de sua população é indígena, especialmente do povo Terena, que vive em diversas aldeias na zona rural do município.
“Apesar da riqueza cultural e dos saberes ancestrais, o território enfrenta desafios históricos relacionados à desigualdade social e à pouca valorização do empreendedorismo, especialmente o feminino, relegando às mulheres pouco espaço de realização na sociedade”, explicou Denise Silva, gestora da Bruaca Negócios Socioambientais.
Por conhecer muito bem o território e esses desafios, Silva fez questão de que a equipe da Economia de Comunhão chegasse com alguns dias de antecedência, para vivenciar o Pantanal a partir das pessoas que vivem ali.
Débora Rocha e Rodrigo Apolinário, facilitadores da oficina, puderam conhecer de perto a fauna e a flora do Rio Salobra, tendo como guia uma pessoa ribeirinha. Eles também fizeram parte de uma comitiva pantaneira, por meio de um empreendimento local, e imergiram no cotidiano do peão, cavalgando junto à boiada,, escutando causos na roda de viola e provando a legítima comida de comitiva.
“Essas experiências facilitaram para que conduzíssemos a oficina bem mais integrados com o povo pantaneiro”, disse Débora Rocha, gestora programática e facilitadora de processos da Economia de Comunhão.


Após as oficinas, a Bruaca espera que grande parte das participantes possa vender seus produtos na loja colaborativa do Hub de Inovação Social, para desenvolvimento de habilidades empreendedoras, mentorias, além de capital semente para desenvolver seus negócios
No coração do Pantanal, a cultura de comunhão mostrou, mais uma vez, sua potência: quando mulheres se reconhecem, se conectam e caminham juntas, novos futuros começam a ser tecidos.



