O evento aconteceu entre os dias 03 e 04 de julho, em Manaus (AM), e reuniu 74 lideranças empresariais, comunitárias e espirituais para dialogar sobre práticas que reforcem uma economia regenerativa e de comunhão na Amazônia.
“Eu acredito numa economia a serviço da vida e não da morte”. Esta é uma frase potente, de grande poder de síntese sobre o que vivemos nos dois dias do II Fórum Socioeconômico Ambiental Amazônia Viva: empresas que cuidam, comunidades que florescem, espiritualidade que conecta.
Realizado em Manaus (AM), nos dias 03 e 04 de julho de 2026, o evento foi organizado pela Economia de Comunhão (EdC), um movimento econômico e cultural global fundador do projeto Amazônia Viva: iniciativa que desde 2022 reúne lideranças comunitárias, empresariais, espirituais e de pesquisa, para estimular reflexões e práticas por um novo agir em prol da comunidade amazônida e de uma economia regenerativa.
Para a gestora do projeto Amazônia Viva, Maria Clézia Santana – mais conhecida como Dima -, o II Fórum Socioeconômico Ambiental foi disruptivo.
“Partimos de um tema ‘empresas que cuidam, comunidades que florescem, espiritualidade que conecta’ e chegamos num fórum disruptivo, embasado na vivência, nas relações entre lideranças empresariais, de pesquisa, religiosas e comunitárias, onde pudemos verificar a prática de um dos fundamentos da Economia de Comunhão: a cultura do encontro”, compartilha Dima.
1º Dia: conexão com as raízes



Em sua segunda edição, o Fórum Socioeconômico Ambiental reuniu participantes não apenas do Amazonas, mas também de estados como Pernambuco, Bahia, Espírito Santo, São Paulo, Paraná e Pará, em dois dias de evento.
O 1º dia aconteceu no Bosque da Ciência, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), um espaço acolhedor e inserido no meio da floresta.
A proposta do primeiro dia foi reconectar cada participante consigo mesmo, à comunidade e à natureza. A abertura foi realizada por Ubiraci Pataxó, liderança indígena na Bahia, que fez uma prece do seu povo. E a gestora programática da Anpecom, Débora Rocha, deu as boas vindas a todas e todos em nome de toda a equipe e do conselho da associação.
A chegança e o aterramento para o dia que se iniciava foram conduzidos pelo facilitador e sócio da De Pessoa Pra Pessoa (P-P), Rodolfo Bonifácio, com técnicas de respiração para trazer foco aos momentos que seriam vividos ali. Já Fábia Siqueira (AION), realizou uma dinâmica em dupla, onde cada participante pôde refletir sobre suas forças e conhecer melhor os demais presentes.
Esse instante de foco abriu as portas para um dos momentos mais marcantes do Fórum: o Banho de Floresta, um convite para uma conexão genuína e profunda consigo mesmo(a).
Banho de Floresta




O Banho de Floresta foi realizado ao longo do Bosque da Ciência, observando cada árvore, bicho, brisa e passo dado, sempre conduzidos por uma equipe inspiradora e parceira do projeto Amazônia Viva: Fábia Siqueira (AION), Rodolfo Bonifácio (P-P), Ubiraci Pataxó (Instituto Korihé), Padre Ricardo Castro (líder espiritual) e Mara Pacheco (bailarina).
Para este momento, foi criada a Bússola do Sentir, um instrumento simples e orientador, que norteou os passos de cada participante.

No fim do percurso, o Banho de Floresta “aterrou”, e convidou a uma conexão profunda com a natureza, na certeza de que não somos o centro ou os donos desta terra, apenas parte desta grande teia da vida. “Enquanto houver terra, haverá esperança” foi uma das frases destacadas pelo Padre Ricardo, e que simboliza bem esse momento especial.
Saímos do Bosque diferentes de como entramos: mais presentes. Convidados para continuar as atividades do Fórum.



A tarde foi precedida de um almoço especial, preparado pela NP Porto, uma empresa que nasce da conexão genuína com a Amazônia real, que pulsa em sabores e propósitos. Com opções vegetarianas e onívoras, cada participante pôde experimentar alguns dos sabores do território. “Uma das partes mais importantes para mim foi o cuidado com a alimentação”, conta a liderança indígena do povo Dessana, Janete Alcântara.
Muito além da lucratividade

O painel da tarde dialogou sobre o tema “Muito além da lucratividade”, uma inspiração do documentário “Muito além do lucro”, escrito e dirigido por Mara Mourão e compilado em um livro organizado por James Marins, que questiona o modelo capitalista tradicional.
Subiram ao palco a Gestora Programática da EdC Brasil, Débora Rocha, ao lado dos convidados Reverendo Antônio Victor (economista, membro da Rede Amazonizar e líder espiritual da Igreja Anglicana) e Durval Braga Neto (economista, colunista do G1 e da CBN, e CEO do Parque de Ideias).
Os painelistas orientaram um diálogo fundamental sobre a relação da Economia, com as pessoas e o meio ambiente, afastando-a da perspectiva que apenas Empresas teriam o interesse no fazer econômico e aproximando o tema de sua origem etimológica: “administração da casa”.
“Falar de Economia é falar de cuidado. Economia envolve o cuidado conosco, com as relações e com o planeta, ou seja, com todas as formas de vida. Então, porque não estamos falando sobre o cuidado nos diferentes espaços da nossa vida, seja na família, nas relações sociais ou no ambiente de trabalho?”, questiona Rocha.
O Rev. Antônio Victor ilumina a perspectiva das novas economias. “Hoje nós temos muitas alternativas a este modelo econômico. E nós começamos a pensar sobre o nosso papel neste movimento, afinal cuidar da casa é dever de todos nós. Pense: qual é o seu papel enquanto protagonista dessa transformação?”, complementa.
Durval utiliza a lente da experiência empresarial para destacar a relação indissociável entre a Educação e a Economia. “Na escola, a criança demonstra seus talentos. Nas empresas, precisamos de líderes que estimulem os talentos de cada pessoa. Talvez o ambiente de trabalho possa nos libertar. Talvez, o verdadeiro papel do trabalho seja libertar o melhor que existe em cada pessoa”, destaca.
“Eu acredito numa economia a serviço da vida e não da morte”.

Em seguida, Ricardo Voltolini, fundador do movimento Marcas que Se Importam, concluiu o dia com uma apresentação sobre o tema “Liderança e sustentabilidade: o desafio é para dentro”.
Voltolini defende que os líderes das empresas estão desconectados de si próprios, dos outros e da natureza. Por isso, o desafio é reconectar, olhar para dentro, desenvolver competências internas que definem crenças, valores e visões de mundo, estimulando lideranças que compreendem o liderar enquanto uma ação mais saudável e carregada de propósito para o mundo.
Através de 8 histórias reais de líderes, Ricardo mostrou que liderança é, antes de tudo, um ato profundamente humano.
2º Dia: protagonistas de uma economia regenerativa


O 2º dia do II Fórum Socioeconômico Ambiental Amazônia Viva começou com a chegança ao lado da focalizadora de dança circular Selma Lopes, que despertou o corpo para viver mais um dia intenso. Em seguida, os participantes viveram uma manhã de mergulho em iniciativas que fazem florescer uma Amazônia Viva.
Cada pessoa escolheu um dos dois projetos parceiros do projeto Amazônia Viva, que abriram suas portas e compartilharam suas experiências cotidianas construindo caminhos de cuidado com a vida, com o fortalecimento comunitário e com a valorização dos territórios.
Casa Amazônica de Francisco e Clara

Na Casa Amazônica de Francisco e Clara, os e as participantes conheceram um espaço que integra a Articulação Brasileira pela Economia de Francisco e Clara (ABEFC), inspirada pelo chamado do Papa Francisco para uma economia que promove a vida, a inclusão e o cuidado com a Casa Comum.
Associação das Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro

Na Associação das Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro (AMARN), referência na preservação da cultura do Alto Rio Negro em Manaus, encontraram mulheres indígenas de diferentes povos que fortalecem a geração de renda, valorizam seus saberes ancestrais e constroem pontes com a comunidade local.
Ao abrir suas portas, essas iniciativas mostraram que regeneração e equidade deixam de ser conceitos e se tornam práticas capazes de transformar as comunidades e territórios amazônidos.
Um mergulho nas realidades amazônidas



A tarde do II Fórum Socioeconômico Ambiental Amazônia Viva foi um convite para sentir, escutar e imaginar novos futuros para a Amazônia.
Começamos com o poeta e músico Celdo Braga, que nos conduziu por uma experiência sensível com os bioinstrumentos, sons produzidos a partir de elementos da natureza amazônica, despertando uma escuta profunda do território.
Em seguida, Rogério Cunha compartilhou sua trajetória como empresário da EdC e parceiro do Projeto Amazônia Viva, mostrando como o empreendedorismo pode caminhar lado a lado com a comunhão e o cuidado com a vida. Também Athus Vasques, da aldeia Tikuna, no Alto Rio Solimões, compartilhou sua experiência enquanto liderança indígena e fundador da primeira igreja indígena, ressaltando o cuidado com a conservação da cultura local e o cultivo da espiritualidade.
A tarde seguiu com a apresentação de três iniciativas que nascem do protagonismo das comunidades amazônicas.
Márcia Marques apresentou a Farmácia Viva, projeto desenvolvido na comunidade quilombola Nossa Senhora das Graças, em Óbidos (PA) que transforma saberes ancestrais em cuidado concreto: por meio do cultivo de plantas medicinais e da etnobotânica, comunidades acessam saúde de forma autônoma e culturalmente enraizada.
Taís Siqueira trouxe o Curumim Feliz, iniciativa que reivindica algo simples e urgente: o direito das crianças ribeirinhas de brincar, crescer e viver a infância com segurança e plenitude.
Janete Alcântara apresentou o Luz do Sol na Aldeia, projeto que busca levar energia solar à Aldeia Akural, para proporcionar autonomia energética e evitar apagões na comunidade, principalmente na época de seca.
Ao final das apresentações, os participantes do Fórum tiveram a oportunidade de direcionar o valor de suas inscrições para os três projetos apresentados, fortalecendo, de forma concreta, as iniciativas que mais tocaram seus corações, utilizando critérios de sua preferência .
Depois de dois dias mergulhados em economia, espiritualidade, floresta e comunidade, só havia uma forma de encerrar: celebrando. Uma apresentação vibrante inspirada nos bois Garantido e Caprichoso tomou conta do espaço, e lembrou que cuidar da Amazônia também é dançar com ela, honrar seus povos, suas tradições e sua identidade.
Assista e confira alguns depoimentos de quem viveu o Fórum:
Fotos – Créditos: Ribamar Xavier / Ana Júlia Garcia Pinheiro




