“A forma que eu enxergo de lutar contra o racismo não tem nada a ver com violência ou deterioração do outro. Tem a ver com mostrar como nós, negros, podemos fazer coisas muito boas para a sociedade e fazer a diferença”.
Essa fala diz muito sobre Kênia Aquino Garcia, comissária de bordo que mostrou, na prática, o que acontece quando conectamos oportunidades e vulnerabilidades.
Vivendo entre o céu e a terra, mais precisamente entre os voos comerciais e sua casa em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, Kênia vive próximo à família e divide a vida profissional e pessoal com um trabalho voluntário na Associação de Afroempreendedorismo da Odabá, na qual é cofundadora (2018) e atual presidente.
Em 2025, a Odabá participou do edital do Supera, da Economia de Comunhão, com o projeto AfroFuturo Empreendedor(a) – clique aqui para saber mais.
A vida de comissária era um sonho de adolescente, que decolou graças ao seu esforço em transformar o sonho em realidade e proporcionar à família experiências para além do horizonte. “Graças ao meu trabalho, vivo a maior alegria que é poder levar minha família para ver o mundo e conhecer novas culturas e vivências que sabemos o quanto são difíceis para grande parte da população”.
No entanto, o trabalho nas nuvens não mudou a realidade que Kênia vivia em terra. Mulher negra, ela compartilha que, na maior parte das vezes, era a única pessoa negra dentro do avião. “Não apenas na tripulação, mas entre passageiros também”, destaca.
O preconceito no ar

Créditos: Joaquim Rodrigues (@enredo.fotografia)

Nos primeiros anos, ela atuava em trajetos nacionais. Precisou enfrentar comentários racistas, olhares preconceituosos e a triste constatação de ser a única pessoa negra em muitas ocasiões.
A raiva da injustiça do racismo – um mal estrutural do Brasil – foi companheira de muitas viagens. O combate contra os comentários vinha quando se sentia segura para falar, mas ela queria ir além da fala.
“A gente passa por esse processo [de raiva] para tentar entender como mudar o mundo. Hoje, o que faz sentido para mim é fortalecer os meus. Fortalecer outras pessoas negras, dando acesso à educação e oportunidades de trabalho. Não é sobre o outro, é sobre a gente”.
Esse senso de fraternidade e de reciprocidade levou à criação de um projeto que transformou a vida de 10 jovens negros em Porto Alegre.
Sonhar coletivamente: um projeto de fortalecimento
Do desejo de fortalecer os seus e contribuir por um mundo mais justo, nasceu o projeto “Pretos que voam”, em 2021. Financiado pelo edital da Benfeitoria, o projeto foi fruto de uma força coletiva com comissárias e comissários negros, que proporcionaram a formação de 10 alunos e alunas que almejavam embarcar na área da aviação.
Ao compartilhar seus conhecimentos, ela viu o projeto tomar forma e ganhar um CNPJ de escola. Foi no ano seguinte, em 2022, que chegou o “Quilombo Aéreo”. Atualmente, os trabalhos da escola estão sendo guiados por outros profissionais, mas Kênia conta com carinho que viveu muitas lindas histórias com a juventude. Uma delas foi especial e lhe marcou fortemente.
“Pude dar aula para a atual 2ª comissária de bordo Trans de uma companhia aérea! Isso é motivo de grande orgulho. Uma menina negra, trans e periférica que foi bolsista no Quilombo Aéreo e se tornou colega de trabalho”.
Segundo Kênia, sua aluna conseguiu transformar a própria história e conquistou acessos que ainda hoje pessoas negras e trans têm dificuldades, devido à violência e ao preconceito racial e de gênero.
Em voos mais altos, mas com os pés no chão

Arquivo Pessoal.
Kênia ascendeu na empresa e tornou-se tripulante de voos Internacionais. Junto da ascensão, seu senso de coletividade e fortalecimento dos seus trouxe um velho incômodo à tona: novamente, experimentou o gosto amargo de ser a única pessoa negra dentro do avião.
“Esse velho incômodo trouxe uma percepção nova.Com o passar do tempo, fui notando nas pessoas uma tentativa de velar falas racistas. Como recentemente, quando eu estava no voo e uma passageira me disse ‘você é exótica’. Com essa palavra exótica ela queria dizer que eu era diferente que ela, que eu era negra. Eu então respondi: eu não sou exótica, eu sou igual à minha família e aos meus amigos”.
Apesar disso, Kênia não se mostra abalada, muito menos desmotivada. A felicidade de alcançar voos mais altos com seus pés no chão é continuar trilhando um caminho constante de mudança.

Créditos: Joaquim Rodrigues (@enredo.fotografia)

Arquivo Pessoal.

Créditos: Cintia Lentilha.
Quando ela começou o Pretos que Voam, havia pessoas que diziam que isso não faria a diferença no mundo. Mas isso fez a diferença no mundo daquelas 10 juventudes, que hoje, assim como Kênia, levam suas famílias para conhecer o mundo.
“Eu acredito muito no poder do coletivo. Se eu pudesse deixar uma mensagem é que as pessoas continuem acreditando no poder da mudança. Que a gente continue acreditando, sonhando e movimentado por um mundo melhor dentro das empresas, dos projetos e da nossa vida diária”.
Neste Dia Internacional Contra a Discriminação Racial (21), histórias como a de Kênia mostram que combater o racismo está intrínseco na vida de quem vive por um mundo mais justo, regenerativo e fraterno.




