A comunidade de Benjamim Constant, no Alto Rio Solimões na divisa com a Colômbia, tem como um dos seus povos originários o povo Ticuna. É dentro dessa comunidade que nasce o projeto Roça sem Queima, que incentiva a produção agroecológica de alimentos como açaí, banana, goiaba, buriti e abacaxi, além de hortaliças e temperos, em profunda harmonia com a natureza e resgate de ancestralidade.
O projeto nasceu de uma iniciativa pessoal da liderança indígena Myrian Vasques, após aprofundar seus conhecimentos em Mudanças Climáticas e Justiça Climática participando do Projeto Amazônia Viva, da Economia de Comunhão, e de uma jornada já de longa data em outras iniciativas de desenvolvimento socioambiental.
“A queima nós aprendemos com a agricultura ocidental. A roça queimada só é reaproveitada uma ou duas vezes. Depois, precisávamos buscar outro local para descansar o terreno por pelo menos dois ou três anos. E aí íamos destruindo outro pedaço da floresta“, conta.
Ao perceber a importância de trazer ações mais sustentáveis para sua comunidade, Myriam aceitou o convite dos Ticunas colombianos e levou dez famílias da sua aldeia para aprender com eles a roçar sem queimar a floresta.
“Agora, não precisamos queimar para plantar. Derrubamos árvores pequenas e mantemos as grandes para não deixar o solo morrer. Já temos três mulheres que praticam a roça sem queima desde o ano passado e estão vendendo suas colheitas para a merenda escolar do governo“, completa.

A proposta é ampliar o projeto, inclusive no próprio terreno da Associação das Mulheres Indígenas Ticuna (AMIT). “No nosso terreno não derrubamos nenhuma árvore. Nossa intenção é recuperar todas as árvores nativas. Para isso, vamos até uma mata nativa coletar sementes para poder trazer para o terreno da AMIT“.
Plano de Adaptação Climática
Myriam nos conta que a partir do Projeto Amazônia Viva e de toda a orientação e conscientização recebida, também surgiu a ideia de elaborar o Plano de Adaptação Climática da sua comunidade, aprovado pela FAS durante a COP 30.
“O Plano foi criado por causa do Projeto Amazônia Viva porque fui escutando conversas aqui e ali. Aumentamos os nossos saberes e a conscientização da comunidade”. Com os fundos liberados para o Plano, a ideia é oferecer as Oficinas de Aula Viva, com duração de três dias. No primeiro dia, um aprofundamento teórico sobre Mudanças Climáticas. No segundo, a prática da roça sem queima, bem cedinho, e à tarde um pouco mais de teoria. No terceiro dia, uma uma deliciosa experiência de cozinha nativa. “Em grupos, vamos praticar uma culinária que já não praticamos mais, aquela das nossas mães e avós, como moqueada, macaxeira assada, etc. No fim, vamos levar para a mesa para todo mundo provar”.
Para a Economia de Comunhão é uma grande alegria saber que estão nascendo iniciativas dentro da própria comunidade e inspiradas por elas próprias que conectam geração de renda, sustentabilidade e ancestralidade como frutos do Projeto Amazônia Viva. É a cultura de uma nova economia que se fortalece, por um mundo mais regenerativo e mais fraterno.




