Projeto Amazônia Viva
Boletim Parcial | Setembro de 2026
Fase III do Projeto Amazônia Viva contempla imersão na Amazônia, formação para lideranças e realização do II Fórum Amazônia Viva
Nas linhas que se seguem compartilhamos com vocês as últimas iniciativas do Projeto Amazônia Viva. A proposta não é a de um relatório, mas sim de um boletim que transborda a vida do projeto, de caráter mais qualitativo.
Neste último período, tivemos o privilégio de imergir no território amazônico, contribuir com a formação de cuidadores de comunidade, concretizar a realização do II Fórum Socioeconômico Ambiental Amazônia Viva e concluir um curso EaD para quase 300 pessoas interessadas em conectar economia, espiritualidade e Justiça Climática.
Imersão Amazônia Viva: Rios de Comunhão
De 29 de junho a 2 de julho de 2026, a Comunidade Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, no Lago de Acajatuba, em Iranduba (AM), a 70 km de Manaus, recebeu a primeira edição da Imersão Amazônia Viva: Rios de Comunhão.
Realizada pelo Projeto Amazônia Viva em parceria com a Vivalá, uma empresa de turismo sustentável certificada pelo Sistema B Brasil, a imersão reuniu empreendedores, lideranças empresariais e sociais, pesquisadores e pessoas interessadas na Economia de Comunhão. A proposta era simples: durante quatro dias, imergir na ancestralidade, na cultura, no modo de vida e na espiritualidade de uma comunidade ribeirinha em preparação ao II Fórum Socioeconômico Ambiental Amazônia Viva e como parte do fechamento do curso EaD (ver notícia a seguir).
O grupo navegou por rios e igarapés, caminhou por trilhas na floresta, visitou empreendedoras comunitárias, participou de oficinas de doces amazônicos, cosméticos naturais e ervas medicinais, sentou-se em rodas de conversa com moradores, comeu a comida local e dançou o carimbó.
“Não foi só turismo”, disse um dos participantes. “Foi conhecer a vida e os desejos das pessoas do território. A vontade e a tenacidade de ir adiante.”
Durante a Roda de Comunhão, espaço de partilha e escuta, as falas revelaram um mesmo percurso de exaustão até chegar ali e de reencontro após a imersão. “Jornada difícil nos últimos seis meses”, “alma e espírito cansados”, disseram alguns. Outros, completaram: “Aqui senti ausência de cobrança, isso me cura. Ninguém me cobrou nada, não precisei performar.” E ainda: “entendi que não vim para conhecer, mas para pertencer, para despertar a partir de dentro.”
A Imersão Amazônia Viva confirma uma intuição que atravessa toda a Fase III do projeto: o território não é somente objeto de intervenção. É também um lugar de encontro, reciprocidade e de aprendizado.
Levar empreendedores e lideranças até as comunidades — e não apenas trazer as comunidades até os eventos é caminho fecundo para o alinhamento conceitual que o projeto vem construindo. O convite, agora, é para que essa experiência se repita e se amplie.
II Fórum Socioeconômico Ambiental Amazônia Viva
Logo após a imersão, nos dias 3 e 4 de julho de 2026, o projeto reuniu, em Manaus, 74 lideranças empresariais, comunitárias e espirituais no II Fórum Socioeconômico Ambiental Amazônia Viva, com participantes do Amazonas, Pernambuco, Bahia, Espírito Santo, São Paulo, Paraná e Pará. O encontro se propôs a dialogar sobre uma economia a serviço da vida.
A abertura foi um momento bem marcante para os presentes. No Bosque da Ciência, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), participaram de uma prece da liderança indígena Ubiraci Pataxó. Depois, sob facilitação de Rodolfo Bonifácio (De Pessoa Pra Pessoa) e Fábia Siqueira (AION), vivenciaram o Banho de Floresta. Pe. Ricardo Castro (Faculdade Católica do Amazonas) também fez uma reflexão vivencial sobre a Ecologia Integral. Esse momento “aterrou”, e convidou os participantes a uma conexão profunda com a natureza e com a espiritualidade, tendo como mensagem principal nossa integração como partícipes desta grande teia da vida, e não o centro ou os donos dela.
O Fórum ainda dialogou sobre Economia, a partir do painel “Muito além da lucratividade” e com a palestra de Ricardo Voltolini, fundador da “Marcas que Se Importam”.
A programação desse eixo pautou a relação da Economia com as pessoas e o meio ambiente, afastando-a da perspectiva que empresas teriam apenas o interesse no fazer econômico e aproximando o tema de sua origem etimológica: “administração da casa”. Além disso, os participantes também foram convidados a “olhar para dentro” e reconectar suas crenças, valores e visões de mundo com a atuação empresarial ou de liderança. O reverendo Antônio Victor (Rede Amazonizar), lembrou que “cuidar da casa é dever de todos nós”; e o economista Durval Braga Neto (CEO do Parque de Ideias), ressaltou: “talvez o verdadeiro papel do trabalho seja libertar o melhor que existe em cada pessoa”.
“Ali não tinha o título de empresário, doutor, professor. Todo mundo fez questão de falar de maneira simples. Comunicação assertiva é quando o seu José, que mora lá na comunidade e não tem nem televisão nem energia, e o doutor Antônio, conseguem entender a mesma coisa”, relatou Ubiraci Pataxó.
O Fórum também propiciou aos participantes duas visitas: à Casa Amazônica de Francisco e Clara, ligada à Articulação Brasileira pela Economia de Francisco e Clara (ABEFC); e à Associação das Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro (AMARN). Ao abrir suas portas, essas iniciativas mostraram que regeneração e equidade deixam de ser conceitos e se tornam práticas capazes de transformar as comunidades e territórios amazônicos.
Durante o Fórum, os participantes também puderam conhecer três iniciativas que nascem do protagonismo das comunidades amazônicas: a Farmácia Viva, de Márcia Marques, dedicada à etnobotânica na comunidade quilombola Nossa Senhora das Graças, em Óbidos (PA); o Curumim Feliz, de Taís Siqueira, voltado ao direito de brincar das crianças ribeirinhas; e o Luz do Sol na Aldeia, de Janete Alcântara, que leva energia solar à Aldeia Akural.
Ao final das apresentações, os participantes tiveram a oportunidade de direcionar o valor de suas inscrições para os três projetos apresentados, fortalecendo, de forma concreta, as iniciativas que mais tocaram seus corações, utilizando critérios de sua preferência.
“Foi um evento disruptivo, embasado na vivência, nas relações entre lideranças empresariais, de pesquisa, religiosas e comunitárias”, disse Maria Clézia Pinto, gestora do Projeto Amazônia Viva.
Cuidadores de Comunidade
O Projeto Amazônia Viva também promoveu, entre maio e julho de 2026, a primeira etapa do Programa Cuidadores de Comunidade: um percurso formativo híbrido, que preparou lideranças para a promoção da saúde mental e do bem-estar coletivo nas comunidades da Amazônia. No total, 22 lideranças participaram da iniciativa. Ao conectar teoria, espiritualidade e prática, o Cuidadores de Comunidade fortaleceu uma rede de pessoas comprometidas com o cuidado e com a transformação de seus territórios.
A metodologia do Programa Cuidadores de Comunidade contou com módulos on-line de 2h de duração, sempre voltados para a oferta de teoria, de ferramentas e de vivências que apoiam às lideranças quando desenvolvem o papel de cuidadores.
Cada liderança foi convidada a percorrer um fio condutor que perpassou 7 obras espirituais para a vida comunitária e o desenvolvimento de competências internas e externas.
Além disso, foram convidados a desenvolver competências para exercer uma liderança atenta ao cuidado com cada pessoa, tais como a escuta atenta e a orientação comunitária, a prevenção de sofrimentos emocionais, a multiplicação de saberes e a promoção do bem-viver, conectando saúde mental, espiritualidade e preservação da Amazônia.
Um dos momentos significativos da formação aconteceu entre os dias 6 e 13 de julho, em Manaus, com o módulo presencial de Terapia Comunitária Integrativa (TCI), conduzido pelo facilitador e terapeuta Ubiraci Pataxó.
Com objetivo de criar espaços de acolhimento, fortalecer os vínculos entre as lideranças e inspirar a reflexão sobre as potencialidades de cada comunidade, Ubiraci facilitou rodas de diálogo, oficinas de massagem e momentos ao ar livre.
Para Maria Clézia Pinto, gestora do projeto Amazônia Viva, essa experiência presencial da TCI se conectou a uma reflexão que atravessou todo o percurso formativo: a de que o amor pode ser uma categoria econômica, capaz de gerar valor social, fortalecer relações e abrir caminhos para um presente e um futuro mais fraterno.
“Foi o curso mais transformador da minha vida, em todos os aspectos, físico, mental e espiritual. Serei eternamente grata”, disse uma das lideranças participantes.
Curso EaD Amazônia Viva
Outra iniciativa importante do projeto Amazônia Viva neste último período foi a conclusão, em julho, do Curso Amazônia Viva EaD 2026. A formação teve como objetivos ampliar o conhecimento e o potencial de influência das lideranças das comunidades espirituais, empreendedoras e comunitárias do território brasileiro, impulsionando a reflexão e a prática de ações que inspirem novos modelos econômicos.
A estrutura do curso foi dividida em oito aulas, distribuídas em três módulos, sendo duas ao vivo e seis gravadas. O módulo de Justiça Climática tratou da origem do conceito, do racismo ambiental, dos movimentos sociais e das políticas públicas, além do Bem Viver e da sociobiodiversidade.
O módulo de Economia e Sociobiodiversidade abordou métricas ESG, engajamento de stakeholders, empresas B como a Tucum e a Vivalá, a situação atual dos povos indígenas e das terras indígenas, e trouxe relatos de empreendedores amazônicos.
Já o módulo de Espiritualidade e Empreendedorismo percorreu a espiritualidade socialmente engajada, as encíclicas Laudato Si' e Fratelli Tutti, a Economia de Francisco, as práticas e premissas da EdC, negócios de base comunitária, turismo comunitário e negócios de impacto.
O Curso registrou 277 inscrições de 19 estados brasileiros e de dois países estrangeiros (Portugal e Bélgica), em uma edição realizada entre março e julho de 2026.
A Região Norte concentrou a maior parte das inscrições — 131, ou 47,29% do total —, com destaque para o Amazonas (90) e o Pará (35). Em seguida vieram o Sudeste (32), o Nordeste (29), o Sul (24) e o Centro-Oeste (7). Mais de 70% dos inscritos foram mulheres.
Inscrições por região
“O (curso) Amazônia Viva foi um convite para compreender que ocupar um espaço social não é acumular, todavia, é garantir que o desenvolvimento sustentável permaneça firme, com foco no bem-estar humano em todas as suas dimensões. Assim, quando a economia passa a servir à vida, e não o contrário, a sustentabilidade deixa de ser um mero termo técnico para tornar-se um ato de reverência. É o encontro pleno entre a nossa capacidade de produzir e a nossa profunda necessidade de pertencer”, disse a participante Márcia Miranda Marques.




